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Poetic Profile

 

 

Sérgio Medeiros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) Quais são suas influências poéticas? Quem são seus poetas, scritores, artistas plásticos favoritos? De onde você busca inspiração para o seu  trabalho?

Tenho vários autores favoritos, inclusive alguns não-canônicos, como o índio xavante Jerônimo Tsawé, com quem convivi numa aldeia localizada no leste do estado de Mato Grosso. Ele já faleceu, mas era um grande narrador e deixou vários relatos míticos e oníricos, que analisei em meu primeiro publicado, "O Dono dos Sonhos", lançado em 1991 por uma pequena editora que não existe mais. Aprendi com Jerônimo (mas não só com ele) a encarar o visível como algo bastante instável, como algo fugidio que dificilmente podemos captar a não ser utilizando uma linguagem também instável, meio alucinatória, meio onírica e mítica. Meus textos poéticos têm esse caráter alucinatório, acedito, pois cercam os objetos do mundo recorrendo sempre a uma série de imagens que se desfazem enquanto buscam registrar o real que, naturalmente, não é nunca captado. Enfim, devo muito aos mitos e aos sonhos indígenas. Mas devo muito também a certos poetas, sobretudo aos que possuem uma forte veia imagética. São tantos, mas posso elencar, por exemplo, entre os mestres modernistas, Valèry, ou Eliot, ou Apollinaire, ou Stevens etc. São autores que reli recentemente.

 

Dos brasileiros, o meu poeta favorito é Sousândrade, um autor do século XIX que possuía, em certos momentos, um ritmo muito energético, às vezes alucinatório. Por falar em ritmo, minha outra grande influência é a música. John Cage é citado, copiado, deformado, plagiado nos meus escritos. O Cage músico e o Cage poeta. Atualmente, estou preparando um novo livro, "Multiplicação", e já escolhi a trilha sonora que ouvirei durante a elaboração desse trabalho: a música acelerada, corrida de Nancarrow, um compositor que foi chamado de "mago da pianola". Gostaria que meus escritos deslizassem tão rápido quanto a música dele. Não diria que a música me inspira, mas ela é necessária para mim, é um exemplo a ser seguido, pois me liberta de todas as idéias aceitas do que seja arte e, sobretudo, do que seja poesia. Fujo das receitas poéticas. O que verdadeiramente me inspira é olhar (quando me sinto "perdido", sem saber qual é a minha linguagem) para tudo o que constitui a paisagem do lugar onde hoje vivo (o mar, a cidade, a rua, o vazio), paisagem que observo como se fosse às vezes um quadro impressionista e, outras, uma escultura moderna.

Não creio que seja possível observar uma paisagem sem suas referências culturais. Também é fundamental ter do meu lado a minha musa, Dircinha, a quem leio o que escrevo e a quem delego às vezes a tarefa de ordenar numa forma qualquer (mas eficaz) minha coleção de descrições da paisagem.

Dircinha encarna para mim o acaso, embora ela trabalhe com escolhas racionais, ao tentar dar ordem ao caos. Aprendi com Cage e com a Dircinha a não prescindir da terceira mão, a mão do outro, a mão do acaso...

 

 

3) Qual é a sua opinião sobre poesia global? Poesia americana? Poesia latino-americana e de outros países de lingua espanhola e portuguesa?

 

Não tenho opinião nenhuma sobre poesia de país nenhum. Poesia, para mim, só pode ser feita quando você perde suas opiniões e faz o inevitável, escreve segundo seus impulsos intelectuais e emocionais, em nome de alguma coisa que ainda não "é", que não se encaixa em nada, pelo menos temporariamente. Eu leio muito o que se escreve em inglês e francês, por exemplo, mas minhas escolhas são sempre arbitrárias, ditadas pelo "calor da hora", pelo prazer de ler simplesmente e de descobrir um uso imprevisto da linguagem. Sei hoje que o global e o regional, o central e o periférico podem se sobrepor, podem coexistir e, de repente, só há mesmo a poesia, caminhando no escuro, como sempre fez, sem saber exatamente onde está, se no centro ou numa fronteira qualquer. Essa é a coragem e a fraqueza da poesia.

 

4) Quando foi que você se "tornou" um poeta? Quando foi que poesia se tornou parte do seu cotidiano?

 

Sempre li bastante poesia, sempre quis escrever poesia, mas não era capaz. Por isso publiquei tarde. Nasci em 1960, mas meu primeiro livro de poesia saiu em 2001, "Mais ou Menos do que Dois" (Iluminuras);o segundo, "Alongamento", acabou de ser publicado, agora no segundo semestre de 2004 (Ateliê Editorial). Morei uma vez na França, em Paris, quando precisei concluir minha formação e redigir uma tese de doutorado sobre os mitos indígenas o Brasil. Lá, via pessoas comuns nos cafés, mas sabia que escritores também costumavam se sentar ali para escrever. Eu não fui capaz de fazer isso em Paris. Quando voltei ao Brasil, o destino me levou a Florianópolis, uma ilha, onde hoje resido, com minha mulher Dircinha e meu filho Bruno Napoleão. Passei de repente a anotar as idéias (nunca conclusivas) que essa nova paisagem me sugeria; esse trabalho é feito "na rua": andando, parado em pé diante de algo, sentado nalgum lugar...

Redescobri uma experiência que fizera nos anos 80, quando comecei a visitar aldeias indígenas xavantes e bororos: a de escrever caminhando, a de escrever ao ar livre, registrando o que vejo... Mas não escrevo só ao ar livre: às vezes me sento em casa e descubro coisas que me chamam a atenção, coisas banais que não consigo descrever senão imaginando-as em metamorfose contínua. Mas preciso ver algo para, então, fazer o poema, que consiste de certa maneira numa declaração de que nada vi, exceto uma "inconstância", uma transição entre dois estados inatingíveis.

 

5) Qual é a sua formacão educacional? Esta formação foi importante para você?

 

Sou professor universitário, leciono literatura e mitologia, tento confundir as duas coisas, tento colocar lado a lado o mito indígena e a poesia de vanguarda. Por isso traduzi na íntegra a cosmogonia maia "Popol Vuh", com a colaboração do professor Gordon Brotherston, especialista em literatura pré-colombiana que trabalha na Stanford University. Esse trabalho (que é a minha pesquisa de pós-doutorado) foi feito nos Estados Unidos, durante o ano de 2001, e será publicado no Brasil em março ou abril de 2005. Considero fundamental para a minha poesia esse contato estreito, não só como leitor, mas às vezes também como scholar, com as metamorfoses e as incertezas dos mitos.

 

 

6) Poesia nos EUA é dividida entre experimental, tradicional e "popular";  como você classificaria a poesia brasileira?

 

 Eu acredito que faço poesia experimental, pois entro na linguagem como quem entra numa aldeia indígena, sem saber onde pisa. Logo, o que escrevo deve encerrar essa perplexidade de estar num lugar "incompreensível" para uma mente ocidental. Quando eu vistiva aldeias indígenas, nos primeiros anos da minha formação, levava sempre comigo os livros da Alice (a heroína de Carroll) e me imaginava, como ela, entrando num mundo cujas regras eu não alcançava captar, ou, quando captava, tinha dificuldade em aceitar ou pôr em prática. Assim sucede comigo hoje, quando escrevo meus textos. Para mim não existe forma fixa, acho que não escreverei nunca um soneto, por exemplo, embora eu admire muitos sonetos. No meu primeiro livro não há versos, só há frases; no segundo, há frases que se parecem com versos, pela distribuição espacial. Gosto dessa incerteza. Por isso adoto este lema estético de Jorge Luis Borges: "(A poesia) Sin prefijadas leyes, obra de un modo vacilante y osado, como si caminara en la oscuridad." Vacilar ousando é uma fórmula "mágica" para mim. Creio que há muito gente vacilando e ousando na poesia brasileira atual, mas outros optaram pelas formas fixas. Não sei se esses vacilam, se ousam realmente. Enfim, uns são cegos, outros fingem ver à luz das formas fixas, populares ou não. Prefiro essa dicotomia a essa outra, entre experimental e popular.

 

 

7) Qual é a sua comida favorita?

 

Estou na obscuridade total a esse respeito. Qualquer coisa vegetariana. Devorarei sem vacilar.

 

 

8) Time? Atividade?

 

Não tenho time, mas assisto à Copa do Mundo. Ando de bicicleta, meu esporte favorito, desde criança, mas não jogo o tão costumeiro futebol de

fim de semana, passatempo favorito dos brasileiros.

 

 

9) Lugar favorito para férias ?

 

Gosto muito da Califórnia, da Baía de San Francisco.

 

10) Palavrão?

 

Nunca usei um, nos meus textos. Mas há silêncios, vazios no que escrevo. Valem às vezes como um xingamento.

 

 

11) Você é um cientista e poeta; nos EUA esta nunca foi uma combinação normalmente encontrada como na Europa. Como sendo um cientista afeta a sua  poesia?

 

Creio que já respondi a essa pergunta -- sou um professor universitário e um pesquisador. Como poeta, absorvo tudo o que posso sobre mitos de povos não-ocidentais. Isso alarga meu olhar, ou seja, mostra minha cegueira. Por isso, no meu primeiro livro, ofereço versões poéticas dos meus mitos pessoais, versões sempre precárias, provisórias. Falta-me uma visão primordial, fundadora. No segundo livro, ensaio um olhar sistemático sobre algo, mas esse algo foge sob o olhar. O olhar novamente não funde nada, confunde só. Só.

 

 

12) Descreva a comunidade poética na sua região.

Se essa comunidade existe, não faço parte dela, no momento. O escuro por onde avanço, ou recuo, não levou-me ainda até ela.

 

 

Perguntas sobre processos de trabalho

 

1) Como voce forma um poema?

Em primeiro lugar, simplesmente escrevo, não levo em conta a definição de gênero: faço descrições, diálogos, rascunhos, reflexões, depois junto tudo, ou delego essa tarefa à minha musa, cuja função é ordenar (à minha revelia) o que não quero ordenar eu mesmo. Assim, o verso não é meu objetivo, nem o poema. Ultimamente, porém, comecei a brincar com a idéia de poema, de texto versificado, e organizei eu mesmo alguns textos numa forma digamos reconhecivelmente poética. Minha musa pegou esses textos e os pôs numa seqüência. É assim que eu trabalho. A musa é um vento que remexe meus fiapos  de descrições, de diálogos e de reflexões, dando maior (des)ordem ao conjunto. Ela é um sopro nos meus rascunhos. Sou o poetas dos rascunhos. Embora eu trabalhe muito meus textos, depois: sondo o som, a imagem, a "ordem" da musa, posso fazer grandes alterações, a fim de chegar a um certo resultado que agrade ao meu olhar e ao meu ouvido, simultaneamente.

 

2) Poesia para você é um processo orgânico ou sintético?

 

Não trabalho nunca com a idéia de síntese, minha palavra favorita é metamorfose, transformação seguida de dispersão... Daí a necessidade de uma musa do meu lado, que é aquela que recolhe os pedaços soltos... Mas nenhum síntese é possível, o que eu vi ao escrever é diferente do que ela vê ao ordenar minhas frases. É claro que às vezes um poema já nasce pronto, não precisa de uma nova ordem, uma nova desordem, mas não vejo síntese, ou possibilidade de síntese entre a minha concepção do real e a função da poesia de captar esse real.

 

3) Aonde você escreve? Ambiente é importante para você?

Bom, creio que também já respondi a essa pergunta: escrevo com um olho na paisagem. O ambiente em si não é importante. Mas não escrevo diante da tela do computador, escrevo mirando alguma coisa maior, que transcende o quarto, a sala -- a metamorfose "lá fora", a metamorfose que existe desde que o mundo é mundo.

 

4) Entre linguagem criada e linguagem "encontrada", aonde você posicionaria seu trabalho?

 

Eu crio, eu invento descrições novas da paisagem, comparando alguma coisa com outra. Isso não é "encontrado", isso é elaborado, inventado no ato de ver. Aliás, isso é propriamente "ver", para mim. Mas essas descrições não atingem o alvo nunca, são coleções de esboços, de tentativas de usar a linguagem como espelho da metamorfose do real.