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Poetic Profile
Régis Bonvicino



só se findou em 1985. Havia censura mas, ao mesmo tempo, muita energia, em razão da luta contra a ditatura. Ter lutado contra uma ditadura me deu um sentido público da arte e da poesia, que guardo até hoje. Acho que os EUA, a partir de Bush, vivem sob uma ditadura, com supressão de direitos civis. Penso que os poetas norte-americanos poderiam ser um pouco mais engajados na luta por uma nova democracia, aí. Alguns dos poetas daí me passam a impressão de que consideram a política uma “coisa de terceiro mundo”! Acho a questão da escrita aí, de um modo geral, desatrelada da vida e das questões políticas.
2) Quase são suas influências poéticas? Seus poetas favoritos e outras coisas que formam o seu trabalho?
Não gosto do conceito de “influência”, que adveio de Harold Bloom, Bloom que, aliás, conheci em Coimbra, em 2001, e para o qual falei, com humor, enquanto ele subia, comigo, uma das ladeiras da cidade medieval portuguesa, ofegante, que seu cansaço, da subida da ladeira, advinha do “peso da tradição”. Acho que este conceito de influência trama a literatura como submissão, como um jogo de cartas marcadas, e não como invenção. Prefiro a idéia de diálogo. Influência implica subalternidade. E a arte não aceita submissões, de qualquer ordem. Arte é afirmação, liberdade, vigor, invenção. Li, no entanto, no meu começo, muito Carlos Drummond de Andrade, li Oswald de Andrade, li um poeta romântico brasileiro chamado Álvares de Azevedo, gostava do, digamos, “segundo momento” do rock and roll: Beatles e, em especial, John Lennon, Jimi Hendrix, Bob Dylan. Sim, Jimi Hendrix foi muito importante para mim, pelo seu experimentalismo, experimentalismo que deu certo, por sua ousadia! John Lennon pelo ativismo político e experimental. Gostava muito também do grupo Fluxus de Nova Iorque. Gostava – e não gosto mais há muito tempo porque se canonizaram – dos poetas concretos principalmente de Décio Pignatari e Augusto de Campos. Gostava de Caetano Veloso e hoje o acho detestável, comercial, fraco etc. Gostava de Ezra Pound, que li aos dezessete anos. Li também, nessa época, Eugenio Montale e Giuseppe Ungaretti, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. . Procuro ter diálogos, como por exemplo os que mantive com Bob Creeley, Michael Palmer, Douglas Messerli, Norma Cole, e mais recentemente Charles Bernstein, para falar dos norte-americanos. Meu poeta favorito: Federico Garcia Lorca.
3) quando se tornou um poeta e quando a poesia entrou para o dia-a-dia de sua vida?
Tornei-me “oficialmente” poeta, para mim mesmo, aos dessezete anos, em 1972, quando escrevi um poema de duas linhas: “inquietude / inquietudo”. Passei a estabelecer rotinas, neste sentido, de escrever. Foi muito difícil... suportar a idéia de ser poeta. Sempre achei isso pesado, um fardo, em razão dos inúmeros preconceitos e das dificuldades mesmas de se escrever coisas decentes, boas. Até hoje penso na poesia como um fardo. Quero estar sempre livre, para procurar poemas em liberdade, desmarcado de escolas, tendências, rotinas inúteis etc.
4) Onde foi educado? Isto foi importante?
Fui educado nos melhores colégios de São Paulo e, depois, fiz faculdade de Direito, na USP, a melhor universidade brasileira – equivalente aí a Harvard ou Yale. Sim, foi proveitoso pois, nesses estudos, adquiri um sentido público da vida, que talvez não tivesse adquirido se tivesse estudado Letras. Sempre me recusei a fazer Letras, mestrados ou doutorados em Letras etc. Sou poeta e não tenho, neste sentido, uma “carreira”, evitei ter uma carreira como poeta, numa universidade. Interessa-me mais a política do que a economia. Sou uma pessoa de centro-esquerda. Se votassse nos EUA, votaria em John Kerry mas sem convicção .... Gosto das idéias políticas de Michael Hardt. Ele diz que os democratas precisariam ter posições mais radicias, mais duras, no sentido de se recuperar os direitos de cidadania nos EUA, um país, hoje, muito pouco democrático.
5) A poesia brasileira é considerada uma das mais avançadas em termos de vanguarda na América Latina ; será que porque não há, no Brasil, o peso da tradição lírica hispânica? Por que a poesia brasileira é tão vanguardista?
A poesia brasileira, como um conjunto, é muito conservadora e medíocre. Não é vanguardista, de modo algum. Hoje, é das mais conservadoras do mundo. Houve sim a Semana de Arte Moderna de 1922, liderada por Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, que foi o primeiro marco vanguardista brasileiro. Depois, houve o concretismo ( um pouco tardio como vanguarda pois se deu nos anos de 1960), o neoconcretismo, o tropicalismo e só ... Hoje aqui todos os prêmios são controlados pela Academia Brasileira de Letras – muito conservadora, com uma idéia velha de poesia. Acho que, respondendo à sua primeira pergunta, poetas como César Vellejo (Peru), Vicente Huidobro (Chile) e Oliverio Girondo (Argentina) são mais avançados e mais atuais do que muitos dos brasileiros, de um modo geral. Carlos Drummond de Andrade foi vanguardista no seu início, anos 1930, e é um dos maiores poetas da língua portuguesa, de todos os tempos, bem como João Cabral de Melo Neto (1924/1999). Dois gigantes, que sim partiram da vanguarda de 1922. Acho que há poucos poetas pensando “vanguarda” hoje aqui no Brasil: Josely Vianna Baptista e ???. A questão da vanguarda é a que mais me interessa. Acho possível invenção pessoal mas não mais vanguarda coletiva. Acho que precisamos todos de mudanças. A mim, particularmente, me interessa o mundo contemporâneo. É preciso, neste sentido, dizer que a literatura brasileira é conservadora, moldada por um sentido nacionalista e sociológico, a Antonio Candido. Todavia, infelizmente, hoje, o modernismo de 1922, o concretismo de 1960 e o tropicalismo de 1968 são canônicos, vazios, oficiais e oficialismos da vanguarda. Olha, Bianchi, há um vazio no mundo todo, todos estamos perdidos. Meu éden é o cubo-futurismo soviético, onde a revolução que se deu na arte e na política ao mesmo tempo.
6) Qual é a sua comida favorita?
Arroz com qualquer coisa ...
7) Time?
Adoro futebol. Sou fanático. Sou adepto do Palmeiras. Acompanho sempre meu time. O Palmeiras foi vice-campeão mundial em 1999, perdendo a final disputada em Tóquio para o Manchester United por 1x0. Acompanho também a seleção brasileira de futebol. Admiro jogadores como Rivaldo, hoje no Olimpiacos, da Grécia, e Ronaldo Gaúcho, hoje no Barcelona, da Espanha.
8) Férias?
Em qualquer praia brasileira e, em especial, na cidade de Salvador, Bahia.
9) Uma praga?
Vade retro George Bush e vade retro Fidel Castro!
10) Qual é sua opinião sobre a escrita de vanguarda de Nova Iorque em comparação com as vanguardas de outras partes dos EUA?
Vanguarda em NY? Talvez, quando Marcel Duchamp morou lá... No momento, prefiro o ler “Poeta en Nueva York”, de Federico Garcia Lorca .... Não acho que exista vanguarda em Nova Iorque ou em qualquer outro lugar, exceto como gênero. Posso citar poetas que leio e aprecio, entre os vivos: os poemas mais concisos, mais rascantes, menos elocubrados, de Charles Bernstein e Bruce Andrews. Não me afino com poemas muito longos. Bernstein é um pensador, além de bom poeta. É o melhor pensador de poesia dos EUA hoje, ao lado de Marjorie Perloff. Bernstein: uma cabeça viva! Acho “Parsing”(1976), que Perloff não gosta tanto, achando-o steiniano, seu primeiro livro, brilhante, brilhante mesmo! Gosto de Michael Palmer, que nasceu em NY, embora ele seja um pouco preciosista demais para o meu gosto. Não gosto da poesia de John Ashbery – muito discursiva, verbosa, longa, desnecessária, afrancesada, intelectualizada. Gostava de um poeta menor como Gregory Corso e de um maior como Frank O’Hara, que são de NY. Não tenho condições de fazer avaliações profundas da poesia norte-americana. Posso dizer que gosto da virada etnocêntrica que empreendeu Jerome Rothenberg no cenário novaiorquino e norte-americano. Sim John Cage! Gosto também de Stein, George Oppen – o meu favorito – de Williams, de Pound.... Entre os vivos: Rosmarie Waldrop, Susan Howe etc. Bob Creeley é o maior poeta norte-americano vivo para mim. Ele sim deveria ganhar um prêmio como um Nobel, por exemplo. Detesto os beats como Ferlinghetti, um chato. Gostava de algumas coisas de Allen Ginsberg mas não do lado discursivo de sua poesia, que me soava como um discurso vazio de deputado numa tribuna.
11) Como um escritor se São Paulo você se sente apartado do resto do Brasil?
São Paulo é a mais brasileira das cidades brasileiras pois recebe pessoas do Brasil todo. Sou um poeta brasileiro, intensamente brasileiro, do BRASIL!
12) Você teve uma grande e longa relação com Paulo Leminski. Por que este grande poeta não é conhecido fora do Brasil?
Um pouco em razão de a língua portuguesa ser minoritária no mundo. Por exemplo, Carlos Drummond de Andrade ainda não é conhecido nos EUA. Ele foi destruído numa tradução feita para o inglês por um boçal chamado Mark Strand. Mas, ele. Leminski, foi recém lançado nos EUA por mim, Michael Palmer e Douglas Messerli na pioneira antologia “Nothing the sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets”, de 1997, agora em segunda edição, pela Green Integer. Leminski é melhor prosador do que poeta.
Perguntas sobre processos de trabalho:
1) Como você cria um poema?
Gosto de andar e anotar num caderno. Deixo lá, no caderno, por um tempo. E depois “tiro” os poemas. Gosto de criar nas ruas, andando, me movimentando.
2) Você usa a colagem, a parataxe, os cut ups e outra técnicas?
Sim mas sem pretensão. Uso-as como uso qualquer técnica. Poema não é gênero. É poema. É mais do que técnica, do que transpiração, do que inspiração. É visão do mundo em palavras, para o papel. Sou “retrô”: não acredito em “sound poetry”. Acho, por outro lado, muito importantes as experiências com a internet: a e-escrita.
3) A poesia é um processo orgânico ou sintético para você?
Ambos.
4) Aonde você escreve? O ambiente é importante? Você tem rituais ou hábitos para escrever?
Gosto de escrever em movimento, nas ruas, confrontando as ruas com a literatura... Escrevo em qualquer lugar. Tenho disciplinas mas não rotinas. Por exemplo, andei, no último ano, deprimido e só agora retoma minha poesia. Escrevo quando estou relativamente feliz.
5) Num equilíbrio entre linguagem achada e criada onde se situa seu trabalho? Você usa muitas fontes?
Penso que crio as coisas. As coisas estão aí. Você pode pega-las mas se as incorpora, está criando. Sim, uso muitas fontes: a vida. Cansa-me a poesia muito poetizada e elocubrada destes tempos. Prefiro uma poesia mais direta, mais pessoal, mais viva – onde a linguagem diga a si mesma e diga outras coisas, essenciais à sobrevivência do homem.
Links
http://regis.sites.uol.com.br/index.html - Regis Bonvicino's site
www.writing.upenn.edu/pennsound/linking-page/Bonvicino-1998.html - Regis Bonvicino na Segue -traduções em inglês lidas por Charles Bernstein
www.atelie.com.br/nova2.htm - Ateliê Editorial