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Poetic Profile

 

 

Manoel Ricardo de Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2)   Quais são suas influências poéticas? Quem são seus poetas, escritores, e artistas plásticos favoritos? De onde você busca inspiração para o seu trabalho?

Não sei se posso falar em influências. Mas numa variante, alguns poetas me interessam muito. E vou citar apenas os brasileiros pra lista não ficar muito extensa. Primeiro, Joaquim Cardozo e, principalmente, Joaquim Cardozo. Sempre. E aí João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Horácio Dídimo e José Albano. Depois, uma certa produção que não se dá a ver, com tanta clareza, nos mitológicos e decadentes eixos culturais do país. Ainda, os de sempre: Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira e Murilo Mendes, referências básicas à poesia feita no Brasil, em qualquer tempo depois deles. Gosto muito da poesia árcade e romântica feita no Brasil durante os séculos XVIII e XIX. E muito também de certa produção em prosa do século XIX. Autores como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e Raul Pompéia, prosadores por excelência, me interessam muito mais do que poetas. Sempre li mais prosa, creio, ela sempre me interessou mais na literatura brasileira do que a poesia. Hoje tenho redescoberto cada vez mais Jorge de Lima, Rui Ribeiro Couto, Dante Milano e Raul Bopp.

As artes plásticas passaram a ser teima e cisma no meu trabalho quando fiz um livro, em 2000, com Elida Tessler, artista plástica do sul do Brasil, de uma cidade de nome tão sugestivo quanto Fortaleza, Porto Alegre. Falas Inacabadas – objetos e um poema, o nome do livro. Daí, em diante, tudo que passa por esta relação me interessa. E hoje, me interessa muito mais algumas questões das artes plásticas do que do poema. Da dança, do que do poema. Tenho visto e lido poesia com olhos muito cansados pra ela.

 

3) Qual é a sua opinião sobre poesia global? Poesia americana? Poesia latino-americana e de outros países de lingua espanhola e portuguesa?

Não dá pra ler tudo. E ainda há o estilhaço das outras línguas, que não entro. Apenas em mais duas ou três, com alguma clareza. Mas me esforço. E muito. Daí, vou desviar da pergunta pra dizer outra coisa que tem a ver com isso e pra mim nesse momento é mais importante: apenas acho que qualquer coisa que se diga para pensar o poema hoje e que se coloca a palavra crise, antes, já me exaure. Porque acho que a crise sempre se deu, sempre houve. E não há tempo, ou passagem de tempo, pra ela. Ela é sempre, a crise. Não sei se o momento é pior ou melhor pra poesia, pra quem faz poesia, pra quem é leitor de poesia. Sei que este é meu tempo, e procuro vivê-lo como posso, da melhor forma possível, com alguma alegria, com alguma delicadeza. E sei o quanto isto não é possível. E sei também que este meu tempo é complicadíssimo pra pensar o poema, a arte, com algum aparato amoroso, da escolha, do fazer apenas por fazer. Há uma busca desenfreada e sem peias por um troço chamado prestígio, que é um horror. Não há trabalho, não há poema, mas há prestígio. E hoje me pergunto cada vez mais o que é, ou quando é, ou como é um bom poema. Ou como diz um amigo: “Poesia é boa pra quê? Pra anotar num papel e mandar pra uma namorada? Pra ler em voz alta? Pra sair gritando na rua um poema? Pra ganhar dinheiro com ela? Etc etc”. Boa no sentido de servil: serve pra que? Mas isso, creio, nós todos já sabemos.

 

4) Quando foi que você se "tornou" um poeta? Quando foi que poesia se tornou parte do seu cotidiano?

Talvez todos a quem vocês façam esta pergunta digam que ainda não são poetas. Que estão em formação. Que poeta não é, poeta é sendo etc etc etc. Bom, deve ser isso mesmo. Mas eu publiquei meu primeiro livro, Embrulho, no ano 2000. No mesmo ano eu publiquei o Falas Inacabadas, junto com a Elida Tessler. Só em 2003 eu voltei a publicar numa outra experiência: uma prosa poética, As Mãos, em que pedi a alguns amigos que me gravassem em fitas cassete os trechos que selecionei. São amigos que também escrevem, fazem cinema, dançam, são artistas plásticos, enfim, 32 fragmentos. O livro se divide em cinco partes, uma espiral dentro de um quadrado, um dois três quatro e um outra vez. Nos lançamentos, eu monto o livro numa outra seqüência qualquer, aleatória, com outras vozes, várias vozes, faço uma audição dessas fitas e desapareço com esta seqüência depois. São o que chamo de livros invisíveis. Um livro que monto, meu, com outras vozes, de várias pessoas, numa seqüência que desconheço depois.

 

5) Qual é a sua formação educacional? Esta formacao foi importante para você?

Fiz faculdade de Filosofia, quase concomitante eu cursava a faculdade de Letras. Para mim, esta primeira formação foi e é fundamental. Por onde passa toda a minha postura de olhar e ler o mundo. Depois, a pós-graduação em Literatura, mantendo uma coluna num bom jornal da cidade de Fortaleza sobre literatura, até me tornar professor da universidade dando aulas de literatura brasileira e portuguesa e semiótica.

 

6) Poesia nos EUA é dividida entre experimental, tradicional e "popular"; como você classificaria a poesia brasileira?

A poesia brasileira acompanha os desdobramentos do próprio país. País muito grande territorialmente, de relevo confuso, vegetação estranha (nuns lugares muito encorpada, noutros muito rala), de uma gente formada por várias etnias, várias configurações de língua, sotaques, princípios. Uma gente que quase não se conhece porque não viaja pelo país. Enfim, então, imaginem vocês o que é a poesia de um país que não se conhece. Uma poesia que também não se conhece, que acredita mesmo e cegamente que toda ela habita e é feita apenas nas cidades maiores e centrais do país, São Paulo e Rio de Janeiro (nossos dois maiores buracos), e que não dá a ver mais nada, porque é narcísica, principalmente a crítica é narcísica, inda mais a crítica universitária, esta mais ainda. Ledo engano. Os que estão fora dessas duas cidades sempre andam mais pelo país, e andam melhor, viajam mais, conhecem e sabem com mais delicadeza e abrangência sobre este desmando geográfico que somos. Experimentam o país através do deslocamento por ele. Algo fundamental para se fazer aqui, como o fez Mário de Andrade – um de nossos mais interessantes poetas e um dos mais profundos conhecedores de nossa cultura – na primeira metade do século XX.

 

7) Qual é a sua comida favorita?

Hoje, como estou afastado do Nordeste do Brasil e de minhas cidades natal, para terminar minha pós-graduação (estou morando temporariamente no sul do país, no outro extremo onde vivia, numa ilha chamada Florianópolis), sinto muita falta de toda a culinária da região Nordeste, da menos apimentada, do peixe feito na grelha – como se faz lá – ao caranguejo, da moqueca de arraia ao sorvete de bacuri ou de ariticum, do baião-de-dois (arroz com feijão verde, quase sempre) à paçoca pisada com carne seca, do doce de limão em calda ao doce de buriti. Saudade de tudo isso.

 

8) Time? Atividade?

Meu time é o Flamengo, um time que dominou o campeonato de futebol no Brasil durante muito tempo e o que foi mais vezes campeão, cinco.

Sou professor mesmo, de formação, desde os 18 anos que dou aula. Tenho 34. E gosto muito disso. Estou na universidade como professor desde os 27. E gosto muito de estar com os alunos, da pesquisa, do dia-a-dia no campus e nas salas de aula.

 

9) Lugar favorito para férias ?

No Nordeste do Brasil nós levamos vantagem. Temos praias incomparáveis em beleza e tranqüilidades. Lugares ainda quase inóspitos, para se armar uma rede, tomar uma água de coco, ouvir o vento. Sempre uma praia do Nordeste, sempre.

 

10) Palavrão?

(tive que rir disso!) Não sei ao certo. Mas talvez dito em bom som, um Putaquepariu seja quase anestésico, depois de dizer.


Perguntas sobre processos de trabalho:

1) Como você forma um poema?

Não sei ao certo como formo um poema, mas sei quando ele se forma. Mas vou trabalhando nele até meu próprio esgotamento, e sempre com muita alegria. Não há, em mim, nem no meu trabalho com o poema, nenhuma tristeza ou cansaço. Quando falo esgotamento falo de esgotar o que posso com aquele poema. Escrevo muito pouco, mesmo. Mas passo o tempo inteiro formando pequenos poemas que se perdem, às vezes até consigo guardar alguma idéia deles e tento retomá-los, mas são sempre outras coisas, outras possibilidades. O fato é que ao menos os meus projetos de livros eu tenho muito claros. Tenho dois de poemas e mais um de um longo poema em prosa, e trabalho com absoluta racionalidade e delicadeza com meus textos.

2) Poesia para você é um processo orgânico ou sintético?

Poesia é uma incorporação. Como qualquer possibilidade de manifestação da linguagem, seja numa conversa em que se diz um mero Oi! ou um mero Olá! , isto também é incorporação. Está no corpo, exala, retira-se e alimenta-se outra vez na invenção de nosso cotidiano, esta estrutura ficcional a que chamamos de verdade. Poesia não seria diferente: uma elaboração de linguagem que está nas coisas, na vida, no mundo, o desenlace é lidar com as formas de fazer poesia e dar a ela algum senso de gesto, de movimento, de impressão outra; acho que o poema é outro da linguagem.

3) Aonde você escreve? Ambiente é importante para você?

Escrevo sempre no mesmo lugar. Não há outro. Em casa, de frente para o computador, na meu escritório de trabalho que é a casa inteira. Antes era uma máquina velha de escrever. Depois, o computador. E é sempre da mesma forma, pra que eu possa experimentar até não poder mais onde cada palavra vai estar ou não. Tanto que o que não me interessa é imediatamente apagado do computador. Guardo apenas aquilo que acho possa vir a me servir depois, para algum trabalho, algum poema.

4) Entre linguagem criada e linguagem "encontrada", aonde você posicionaria seu trabalho?

Meu trabalho fica num entre: o que encontro, o que crio. E hoje muito mais o que encontro. Porque me interessa muito pouco esta idéia estranha que literatura é tudo aquilo que permanece, me interessa bastante tentar conseguir fazer um trabalho que brinque um pouco com isso da permanência. Algo que seja mais de passagem, mais sem fixidez. Queria mesmo era conseguir escrever livros invisíveis. Por isso, talvez, meu diálogo com as artes plásticas seja hoje muito mais intenso do que com a própria literatura.