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Poetic Profile

 

 

Laura Erber

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) Quais são suas influências poéticas? Quem são seus poetas, escritores, e artistas plásticos favoritos?  De onde você busca inspiração para o seu trabalho?

 

A inspiração vem daquilo que perturba e fascina. Pode ser um livro, um edifício, um objeto, um som, uma cor, o modo como as pessoas se mantêm vivas ou esperam. Pode ser um movimento de corpo, o jeito de fechar os olhos ou abrir. As aflições e delicias dos traslados tem inspirado muito o trabalho também. Influências?! Artistas favoritos?! São tantos e se metamorfoseiam em alta velocidade. Vocês querem mesmo saber? Três artistas cujos trabalhos sempre me impressionarão e aos quais retornarei sempre, Hélio Oiticica, Beckett, Lezama Lima. Durante o os últimos meses andei encontrando caminhos e vasos comunicantes entre os trabalhos da Eva Hesse e as animações do canadense Ryan Larkin. Entre o Livro dos Sons do Hans Otte e a malemolência do Tom Zé. Um caminho que atravessa Empédocles e me leva a Alejandra Pizarnik. Jorge de Lima lido por Mario Faustino. Mario Faustino lido antes de dormir. Reverdy. Kurt Schwitters. Roger Laporte e o seu Carnet Posthume. Descobri recentemente os textos de uma jovem autora, Margareth Obexer, e tenho lido com enorme prazer os poemas e ensaios do italiano Federico Nicoalo com quem compartilho alguns projetos.

 

 

3) Qual sua opinião sobre poesia global? Poesia americana? Poesia latino-americana e de outros países de lingua espanhola e portuguesa?

 

Difícil dizer, não entendo bem o que significa poesia global, acho que certas categorias “globais” ou “locais” não dão conta do que acontece no campo da poesia hoje.  “panorama global” é uma paisagem fora de foco. Há manchas fluorescents aqui e ali, há sombras antigas sobre corpos que se deslocam lentamente, há zonas pouco habitadas e espaços precocemente abandonados. A poesia Americana me interessa bastante,  nela vejo trânsitos interessantes que abrem possibilidade de convergencia da poesia com outras artes, em outras áreas. Gosto bastante do ímpeto que encontro em poemas de jovens autores argentinos. Sinto que ali há uma relação bastante saudável com algumas heranças literárias mixadas num jogo gostoso com o irrisório e o experimental. Na poesia portuguesa também vejo uma tomada da posição bonita no tabuleiro desse jogo, há algo de lúdico e intenso e  muito potente na poesia da Adília Lopes, por exemplo.

 

 

4) Quando foi que você se "tornou" um poeta? Quando foi que poesia se tornou parte do seu cotidiano?

 

Essa pode ser uma resposta tola, ou recorrente, recorro a ela então mais uma vez: o poeta está sempre se tornando ou tentando se tornar poeta. Finalmente ser poeta talvez não seja mais do que um modo de caminhar, de exercitar a intuição, um modo de estar em movimento, de se espreguiçar ou tirar a roupa, esquecer, esperar.

 

Sim, a poesia é fortemente presente no (meu) cotidiano e felizmente ela dissolve as bordas entre o que é cotidiano e o que é extraordinário ou insólito.

 

 

5) Qual é a sua formacão educacional? Esta formação foi importante para você?

 

Acho feiosa a expressão formação educacional. Deve haver outra palavra melhor para isso, não?!

 

Mas seria mais ou menos isso:

 

Viagens, desvios, retornos, fugas, passeios em círculo, tropeços, perdas, encontros, saudades, repetições e saltos.

 

Estudos de desenho na Itália, Faculdade de Letras no Rio, cursos de Arte na Escola De Artes Visuais do Parque Lage, experiêcias com video, 2 anos num programa de residência no Le Fresnoy - Studio National des Arts Contemporains no norte da França e agora a vida que vai se desenhando na Schloss Solitude Akademie, na Alemanha.

 

6) Poesia nos EUA é dividida entre experimental, tradicional e "popular"; como você classificaria a poesia brasileira?

 

Não saberia classificar a poesia, a poesia brasileira. Poderia apenas dizer que olho a poesia brasileira e vejo um bicho que se move aos tropeções, sabe driblar com delicadeza, `as vezes marca gol, as vezes marca gol contra. É um bicho que vale a pena olhar mais de perto. E pra continuar jogando o bicho precisa de boas doses de rigor e liberdade…

 

Há algo também muito instigante que está no hip hop, no funk, no rap, numa mais que interessante insistência do samba, enfim, algo que acontece no ar, na voz, uma poesia que não está nos livros.

 

 

7) Qual é a sua comida favorita?

 

A que como com fome, e, de preferência, em boa companhia.

 

 

8) Time? Atividade?

 

Sou muito distraída com isso de times, mas me considero flamenguista. Atividade? Espreguiçar, namorar e desenhar, mas não necessariamente nessa ordem.

 

 

9) Lugar favorito para férias ?

 

Lugares que ainda não conheço me fascinam. Gostaria de navegar pelo Rio São Francisco, por exemplo.

 

 

10) Palavrão?

 

Não tenho um palavrão predileto, o que for usado na hora certa na ocasião certa, e que, de preferência,seja tão escatológico quanto cômico. Gosto mais de xingamentos em italiano.

 

 

11) As revistas e eventos poéticos brasileiros estão ligados a distintos movimentos?

 

Vejo alguns grupos que compartilham afinidades. Acho que há um espaço maleável, não consigo ver distinçoes muito claras entre certos grupos, há uma circulação engraçada e algumas figuras catalizadoras, centros gravitacionais e algumas nebulosas. Claro, há sempre um grupo conservador e o grupo dos que tem mais prazer em criar em criar polêmica a qualquer custo. Há momentos de tensão e debate interessantes, há excelentes revistas e cada vez mais pipocam pequenas e médias editoras em atividade intensa. (Espero que também surjam leitores para essa nova produção.) E há os que infelizmente não conseguimos nem ver ou ler porque o Brasil também é um país muito grande e desengonçado.

 

 

12) A poesia no Brasil, em sua opiniao, é geralmente ligada a universidades e comunidade acadêmica?

 

Minha impressão é de que o meio acadêmico brasileiro infelizmente ainda não conseguiu criar um espaço fértil para se pensar  e discutir  poesia contemporânea em suas múltiplas formas de manifestação.

 

 

13) Como voce conecta cinema e poesia no seu trabalho?

 

Talvez minha escrita seja atravessada por um desejo cinético, pela tentação de captar a vida em movimento. Mas não tenho certeza disso. De todo modo, acho que os poemas de meu primeiro livro (Insones,Editora 7Letras 2002) trazem a consciência do espaço onde a letra impressa se fixa, o caráter visual da escrita.

 

 

14) Tradicionalmente o Brasil tem uma forte ligacão cultural com a Europa, como isso afeta o seu trabalho?

 

Há 2 anos e meio anos vivo e desenvolvo meus projetos na Europa. Lidar com a lingua portuguesa-brasileira no contexto de outras línguas mixadas, no espaço de uma outra produção de arte e pensamento é altamente estimulante. Para mim, a Europa tem sido um ponto de partida para uma experiência que vai mais além do que se pode chamar de “espaço europeu” num sentido convencional, Algo como uma pista de decolagem e pousos, um lugar para convergências e dencontros também. Os deslocamentos e `as imigrações estão sendo vividas aqui e agora em toda sua complexidade, intensidade e contradição explosiva, e isso para qualquer pessoa envolvida em qualquer tipo de criação me parece ser pra lá de motivador.

 

 

 

 

Perguntas sobre processos de trabalho:

 

1) Como voce forma um poema?

 

De várias formas. Cada poema se forma de um jeito. Os cadernos de notas são preciosos. Dou muita importância ao trabalho de acumular material e de reler com um certo  distanciamento o poema depois de escrito. Deixar quarar e deixar a massa fermentar,  sentir o que se deve manter e o que se deve abandonar.

 

 

2) Poesia para você é um processo orgânico ou sintético?

 

Ambos. O material é orgânico e o processo é de síntese. Mas também pode acontecer de se partir de um material sintético que demande um desdobramento orgânico.

 

 

3) Aonde você escreve? Ambiente é importante para você?

 

Aqui, lá também. De pé, de perfil. Quando duas pessoas dizem uma mesma palavra ao mesmo tempo pode ser aí, onde começa o poema. Com preguiça, com sede, com luz difusa, com saudade, sem saudade, com música. Quando o tradutor vacila ou engole palavras.

Também faço desenhos e longas listas de palavras quando não consigo dar rumo a um poema.

 

 

4) Entre linguagem criada e linguagem "encontrada", aonde você posicionaria seu trabalho?

 

Na possibilidade de convergência entre os dois.